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Sudão do Sul: Testemunho comboniano sobre a actual situação do país
14 de Novembro de 2016

Daqui a cerca de um mês (15 de dezembro) serão três anos desde que uma crise política desencadeou a guerra civil e crise económica responsáveis por milhares de mortes e por uma crise humanitária sem precedentes no Sudão do Sul.

 

Infelizmente a situação parece piorar a cada dia. O acordo de paz assinado em agosto de 2015 parece não se sustentar mais. As forças do governo e as forças rebeldes continuam a combater-se. Não são confrontos intensos como antes, mas há violência em várias regiões.

 

O líder da oposição declarou guerra ao governo, caso o acordo de paz não seja retomado.

 

Estamos no fim da estação chuvosa. Muita gente acredita que com o aproximar da estação seca, os conflitos vão-se intensificar. As forças combatentes estão a preparar-se para mais ofensivas, ou seja, a guerra continua.

 

A impressão que se tem é que o governo quer continuar no poder e a oposição quer tirar o governo à força.

 

Como consequência, muita gente continua a deixar o país. O número de refugiados já passa de um milhão.

 

Dezenas de milhares continuam sob proteção das Nações Unidas em diversos campos pelo país.

 

Há ainda muitos deslocados que sobrevivem no mato ou em áreas isoladas por medo de ataques e saques.

 

A crise económica agravou-se e a inflação chega a 700% ao ano. Há muita gente doente e a passar fome.

 

Além disso, a insegurança tem aumentado. Há muitos roubos e assaltos a residências, geralmente com vítimas.

 

Discurso de ódio e incitação à violência entre as diferentes tribos têm aumentado.

 

Viajar também ficou perigoso. São constantes os assaltos nas estradas e também com vítimas, inclusive mulheres e crianças.

 

Os criminosos podem ser bandidos ou rebeldes que promovem ataques e depois fogem.

 

Ser jornalista aqui passou a ser profissão perigosa. Alguns perderam a vida, outros foram presos e torturados e teve quem se viu obrigado a deixar o país. Rádios já foram fechadas várias vezes. Jornais deixaram de circular.

 

Os serviços básicos funcionam precariamente. Em tudo a população paga um preço muito alto pela guerra gananciosa mantida pelos (des)governantes.

 

Protestar é muito perigoso. O povo sofre em silêncio, mas está revoltado.

 

Há, porém, notícias boas e sinais de vida e esperança.

 

Recentemente foi inaugurado o «Centro para a Paz Bom Pastor», resultado de muita luta e solidariedade das congregações religiosas. Este centro tem a finalidade de investir na formação de lideranças e promoção da paz e reconciliação. Está em pleno funcionamento.

 

Além disso, o Papa Francisco convidou o Conselho das Igrejas Cristãs para uma reunião sobre a situação do país. Foi muito boa. O Papa quer visitar o Sudão do Sul e ajudar a resolver a crise.

 

Por fim, as igrejas continuam a sua presença solidária junto ao povo sofredor, até mesmo em situações de riscos. Isso anima o povo.

 

Aqui em Juba não tem havido combates, mas sentimos que a situação não está boa.

 

Continuamos nossas orações e esforços para uma solução pacífica dos conflitos e fim da crise. Contamos com as orações e solidariedade de vocês. Com muita gratidão receba um fraterno abraço e as bênçãos e o axé de Deus.

 

P. Raimundo Rocha, missionário comboniano em Juba



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