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Sudão do Sul: Mortes, violações e saques
28 de Outubro de 2016

A Amnistia Internacional publicou um relatório a documentar a onda de mortes, violações e saques que tomou conta de Juba em julho passado quando as forças do governo e da oposição se defrontaram nas ruas e nos bairros da capital do Sudão do Sul.

 

O relatório «We did not believe we would survive», «Não acreditámos que sobreviríamos», tem por base 90 entrevistas que a organização internacional para os direitos humanos fez em Juba de julho a setembro a vitimas e testemunhas.

 

A crise começou a 8 de julho quando guarda-costas do primeiro-vice-presidente Riek Machar e tropas do governo se envolveram num tiroteio feroz junto ao Palácio Presidencial conhecido por J1.

 

O Presidente Salva Kiir, o primeiro-vice-presidente Riek Machar e o Vice-presidente James Wani Igga estavam no palácio a discutir as tensões crescentes entre as tropas do governo e os menos de 2000 soldados que faziam a guarda do Dr. Machar desde que regressou a Juba em abril.

 

Não se sabe quem deu o primeiro tiro! Sabe-se que no dia 8 de julho muitos combatentes e alguns civis morreram à volta do J1 e que os combates prosseguiram de 9 a 11 de julho, matando centenas de civis inocentes.

 

As tropas do governo atacaram a força de Machar com armamento pesado, tanques, helicanhões e deram «caça» aos moradores de etnia nuer, matando homens e violando sistematicamente mulheres.

 

Machar e menos de um milhar dos seus combatentes fugiram a pé para a República Democrática do Congo.

 

O relatório detalha os abusos cometidos durante e depois dos combates de julho: matanças deliberadas e desaparecimentos forçados, ataques indiscriminados, violação, saques e destruição de propriedades.

 

Também passa em revista a resposta inadequada das forças da ONU e analisa as obrigações legais internacionais.

 

«A luta foi marcada por violações sérias dos direitos humanos internacionais e da lei humanitária. A Amnistia Internacional descobriu que as forças do governo mataram deliberadamente civis e atiraram indiscriminadamente em bairros civis e à volta dos sítios da ONU para proteção de civis», lê-se.

 

«Colocando tanques e artilharia em áreas densamente povoadas e bombardeando alguns bairros com helicanhões, as forças do governo mostraram um desrespeito apático pela vida humana».

 

O documento também condena as forças de Machar por se escudarem entre civis nos campos de proteção da ONU, consideram o uso de escudos humanos crime de guerra.

 

A Amnistia aponta o dedo às forças da ONU que responderam à violência de julho de uma forma inadequada, falhando a missão de proteger civis.

 

Testemunhas contaram que algumas mulheres nueres foram violadas por soldados à frente de patrulhas dos capacetes azuis.

 

Por outro lado, as forças de paz recusaram-se a auxiliar agentes humanitários estrangeiros que foram atacados num hotel pelas forças do governo a menos de um quilómetro do quartel da ONU.

 

Um jornalista nuer foi assassinado a sangue frio no Hotel Terrain e muitas mulheres, algumas norte-americanas, violadas pelos soldados que roubaram tudo o que puderam e destruíram o resto numa orgia de vingança.

 

A Amnistia responsabiliza os líderes pelos crimes cometidos pelas suas forças e propõe um embargo de armas ao Sudão do Sul e a ativação imediata do Tribunal Híbrido para o Sudão do Sul para julgar os crimes de guerra e contra a humanidade.

 

«Muitos dos atos detalhados neste relatório, incluindo a morte deliberada de civis, violações e outras formas de violência sexual, e o saque e destruição de casas e negócios civis, são violações sérias destas regras [da lei humanitária internacional] e por isso constituem crimes de guerra», sublinha o relatório.

 

Fonte: Jirenna



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