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Mundo: Missionários da misericórdia
20 de Outubro de 2016

No domingo, 23 de Outubro, celebramos o 90.º Dia Mundial das Missões. Uma oportunidade para recordar, como salientou o Papa Francisco no passado dia 4 de Junho aos directores nacionais das Obras Missionárias Pontifícias, que «a missão faz a Igreja e mantém-na fiel ao querer salvífico de Deus». Como afirma o papa na mensagem que envia a todos os baptizados, os discípulos de Jesus Cristo somos missionários por vocação, pois «cada povo e cultura tem direito de receber a mensagem de salvação, que é dom de Deus para todos».

 

No contexto do Jubileu da Misericórdia, o pontífice sublinha que nas situações mais periféricas e esquecidas do mundo onde estão os missionários, «o Evangelho do perdão e da misericórdia pode levar alegria e reconciliação, justiça e paz». Um modelo convincente desse amor de Deus com entranhas de misericórdia foi-nos dado pela Madre Teresa de Calcutá, canonizada no passado dia 4 de Setembro. Distinguida com o Nobel da Paz, Teresa definia-se como um lápis nas mãos do Senhor. Atenta ao plano de Deus e aos signos dos tempos, foi uma missionária de aspecto frágil e sorridente, que encarnou na sua vida o Evangelho da caridade e da misericórdia e apresentou o rosto de uma «Igreja em saída», «acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas» (cf. Alegria do Evangelho, 24 e 49).

 

Teresa foi alvo de muitas críticas. Ao longo da sua vida passou, igualmente, por momentos de crise de fé e de silêncio de Deus – conhecidas na mística católica como “noite escura”. No entanto, consciente de que Deus não é evidente e a fé não é uma certeza lógico-científica, mas um “bom combate” (cf. Hebreus, 11) que se ganha no caminho do amor, dedicou-se sem desânimo aos moribundos e abandonados das ruas de Calcutá. Deu a vida pelos mais pobres entre os pobres, que eram para ela o rosto de Cristo. Como afirmou Francisco, «não há alternativa à caridade: quem se coloca ao serviço dos irmãos é que ama a Deus, mesmo que não o saiba». A santa albanesa viveu na Igreja a “vocação do amor” (parafraseando Teresinha do Menino Jesus) com intensidade, alegria e autenticidade.

Teresa foi para a humanidade um “pirilampo” de Deus, recorrendo à analogia do filósofo Georges Didi-Huberman na obra A Sobrevivência dos Pirilampos. Ela foi uma dessas pequenas centelhas luminosas e heróicas, capazes de iluminar a humanidade, semeando a esperança e revitalizando os sonhos esquecidos. O motor dessa luz que irradiava a “santa das sarjetas” era a força do amor que contemplava no coração de Deus. E esse amor expressava-se no afecto da misericórdia, que «era o sal que dava sabor ao seu trabalho, a luz que iluminava a escuridão de todos os que não tinham sequer mais lágrimas para chorar pela sua pobreza e sofrimento», como referiu o papa.

Neste nosso mundo consumista, utilitarista, injusto, que constrói muros e globaliza cada vez mais a indiferença, Francisco convida os crentes a seguir o exemplo de fé, entrega e serviço incondicionais de Teresa. O seu exemplo ajuda-nos a compreender «que o nosso único critério de acção é o amor gratuito, livre de toda a ideologia e derramado sobre todos, sem distinção de língua, cultura, raça ou religião». Os discípulos missionários de Jesus Cristo estamos chamados a abrir horizontes de alegria e esperança, a testemunhar a ternura e a compaixão materna de Deus a toda a humanidade, a fazer da nossa vida um dom e um signo luminoso da bondade e da misericórdia do Senhor.

 

Bernardino Frutuoso

Director - Revista Além-Mar

(BERNARDINO FRUTUOSO)



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