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África: Novas colonizações
2 de Abril de 2015

A juventude africana precisa de ser protegida de novas formas de colonização sem escrúpulos através da educação.

 

O Papa Francisco recebeu uma representação do Simpósio das Conferências Episcopais de África e Madagáscar (SECAM) no início de Fevereiro e deixou-lhes um recado importante: «Na África, o futuro está nas mãos dos jovens, que precisam de ser protegidos de novas e inescrupulosas formas de “colonização” como a busca de sucesso, riquezas e poder a todo o custo, bem como o fundamentalismo e o uso distorcido da religião juntamente com novas ideologias que destroem a identidade dos indivíduos e das famílias.» E propôs uma saída: «A maneira mais efectiva de ultrapassar a tentação de cair em estilos de vida nocivos é o investimento na educação.»

 

Não é por acaso que os fundamentalistas islâmicos do Norte da Nigéria se denominam a si mesmos Boko Haram, que significa «educação proibida», e fazem das escolas e da população estudantil alvos distintos. Em Abril do ano passado, raptaram quase 300 meninas do Internato de Chiboko e pelo menos 219 ainda estão nas suas mãos. Os extremistas continuam a matar e raptar estudantes e a destruir escolas, mantendo cerca de 10 mil crianças fora da educação.

 

O papa argentino acrescentou que «a educação também ajuda a ultrapassar a mentalidade vigente de injustiça e violência juntamente com as divisões étnicas». E preconizou um modelo de educação que ensine os jovens a pensar criticamente e encoraje a adopção de valores morais.

 

Pedi a Orla Treacy um comentário sobre as palavras do Papa Francisco. Esta freira irlandesa de 42 anos dirige com carinho e determinação a Escola Secundária de Loreto, um internato para meninas, em Rumbek, no Sudão do Sul. A escola, aberta pelas Irmãs de Loreto em Abril de 2008, já formou 64 estudantes e tem 184 matriculadas neste ano lectivo.

 

A Ir. Orla confessou-se encantada com o comentário do papa sobre as dimensões académica e pastoral da educação. E explicou: «Aqui em Loreto, lutamos muito por uma abordagem integral da educação. As nossas alunas vêm de um fundo cultural muito forte que nega às mulheres e às meninas direitos básicos, e em particular o direito à educação. Ao aceitarmos as meninas na escola, sonhamos que sejam educadas num nível em que possam aprender a reflectir criticamente sobre valores cristãos e questões morais e possam ser empoderadas. Desgraçadamente, a cultura da Igreja e da sociedade nem sempre apoia isto. Muitas meninas são tiradas da escola e casadas à força e as que terminam devem seguir a prática cultural de serem casadas pelo seu valor em vacas.»

 

A religiosa salienta o problema da poligamia. Recorda que as meninas são espancadas até à submissão para aceitarem um casamento polígamo e depois a Igreja considera-as estranhas porque não celebraram o matrimónio cristão.

 

Uma aurora de esperança já rompe o horizonte. A Ir. Orla explica que «no internato recebemos meninas de todos os clãs e tribos dos pais. Aprendendo a viver, estudar, reflectir juntas levou-as a vínculos profundos de amizade. Fora da escola, as famílias das alunas podem estar a lutar umas com as outras, mas na escola vivem em harmonia e todas as diferenças são postas de lado. Muitas crescem com mitos sobre os clãs vizinhos, mas quando se juntam na escola descobrem que são todas iguais.»

 

A Ir. Orla termina com uma nota de expectativa: «Muitas das alunas que conseguiram terminar a escola secundária continuaram a sua educação. O sonho é que estas graduadas no futuro venham a ter posições de autoridade na sociedade e lentamente ajudem a trazer mudança sobretudo na construção da paz e na dignidade da mulher.»

 

José Vieira, MCCJ



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