Página Inicial







Rep. Centro-Africana: O ataque contra a igreja de NS Fátima
5 de Junho de 2014

A 28 de maio, um grupo atacou a paróquia de Nª Srª de Fátima, em Bangui, a capital da República Centro-Africana onde estão refugiadas mais de 6000 pessoas desde que as milícias Seleka muçulmanas tentaram tomar o poder pela força em Agosto de 2012. Um missionário comboniano narra quase duas horas de puro terror.

 

Habituado ao ritmo da vida provocado pela crise, quarta-feira, 28 de maio, parecia mais um dia normal de crise com disparos aqui e ali. De manhã, ouviu-se tiros esporádicos em PK5 (um bairro predominantemente muçulmano) e todos pensámos que era a música diária a que nos habituámos. Mas não era: foi o pior dia na história da paróquia de Nossa Senhora de Fátima, em Bangui, a capital da República Centro-Africana.

 

Eu estava a fazer a hora de sesta diária quando tudo começou. O tiroteio intensificou-se mas eu estava convencido que ia terminar mais cedo ou mais tarde. Fui à casa de banho e voltei ao quarto para um duche. Mal acabei as pessoas começaram a correr à procura de abrigo. Vesti-me rapidamente para não ser surpreendido nu no meu quarto (pelo menos para morrer vestido).

 

Houve um intervalo e pensei que o tiroteio estava a esmorecer. Fui para a minha sala de estar, separada do quarto por um cortinado, e comecei a preparar os comentários para a missa da Ascensão. As armas voltaram a disparar, desta vez mais perto da paróquia. O padre Samuel Langena, comboniano da Etiópia, telefonou do seu quarto, que está a oito metros do meu. Disse a brincar que hoje estavam a jogar a «final» e o vencedor levava a taça. Momentos depois, as coisas ficaram demasiado sérias. As explosões das granadas faziam tremer a terra. Eu sentia as vibrações nos meus pés. Os escuteiros e alguns dos «anti-balakas» (milícias cristãos) obrigaram as pessoas a sair das varandas e procurar refúgio noutro lugar.

 

Alguns minutos depois os «anti-balakas» ficaram sem munições e tiveram que fugir deixando os portões da paróquia escancarados e sem segurança.

 

Os atacantes entraram sem resistência e começaram a atirar indiscriminadamente sobre as pessoas. Muitos dos jovens enérgicos conseguiram galgar os muros, embora em algumas esquinas fossem repelidos pelos atacantes que estavam bem posicionados. Em frente da morte, tornamo-nos mais criativos. As pessoas encontraram lugares de refúgio até entre as próprias bagagens. Muitos dos quartos na casa dos padres estavam cheios de pessoas: até o estreito corredor murado para as nossas casas de banho acomodou mais de 70 pessoas. As sete salas para a catequese estavam completamente cheias. Tivemos muita sorte que os atacantes não suspeitaram que as pessoas se esconderam nas salas. Estavam mais interessados em atirar granadas para a igreja, que surpreendentemente estava vazia.

 

Estava no meu quarto sem saber o que fazer. Tentei contactar algumas pessoas para nos virem salvar. Ouvi a voz do padre Jonas Béka a tentar chamar os «sangaris» (tropas francesas) e a informar o seu tio General Yangongo Xavier Sylvestre, que foi ministro no governo anterior, sobre o ataque. Quando as coisas se tornaram impossíveis telefonei ao superior provincial, o padre Giorgio, para lhe dizer o que estávamos a passar. Por momentos senti-me perdido e incapaz de usar o telemóvel. Ouvi alguém atrás da igreja a pedir a Deus que enviasse o seu poder para nos proteger do poder de Satanás e também a pedir à Senhora de Fátima para não nos abandonar. Subitamente, encontrei-me envolvido numa nuvem de fumo. Corri para me esconder no chuveiro. Houve forte tiroteio no nosso terreiro por uns 25 minutos. Ainda não sei como saí deixando a porta do quarto aberta. Em todo o terreno da paróquia havia pessoas a gritar e a chorar. Havia sete cadáveres à frente da igreja e muitas pessoas carregavam os feridos tentando encontrar maneira de os levar para o hospital.

 

O padre Samuel Langena, que também estava a fazer a sua sesta, pensou que os tiros iriam durar pouco e estava a usar o telemóvel para gravar o tiroteio como sempre o faz. Mas como os tiros cresceram em intensidade ficou preocupado e telefonou-me para perguntar o que se passava. E perguntou se era a final da taça. Ansioso, ficou sem saber o que fazer. Estava indeciso se ficar no quarto ou abrir a porta e escapar. Ele disse que me telefonou segunda vez para eu rezar pelas pessoas mas eu não me lembro.

 

Quando as coisas pioraram, ele mudou-se do quarto para a sala enquanto rezava a Deus para não nos abandonar. A certo ponto, os atacantes bateram à sua porta e disseram-lhe em inglês para abrir. Teve a impressão que os outros padres já tinham sido mortos e que ele seria o único sobrevivente. O medo cresceu e sentiu a sua morte eminente.

 

Por milagre, pegou no seu terço de três metros e começou a rezar. Havia um grande silêncio: só se ouvia tiros e explosões. Não sabe como rastejou no chão. Sentia-se paralisado. Não se escondeu no chuveiro como eu, porque pensou que era uma maneira indigna de morrer. Preferiu ficar no chão da sua sala de estar com o rosário.

 

Quando as pessoas voltaram a falar, abriu a porta e saiu descalço com o seu comprido terço ao pescoço a ver ser os confrades ainda estavam vivos. Quando se deu conta de que estávamos todos bem ficou aliviado do choque. Recebeu uma chamada do superior provincial a tentar encorajá-lo. Esta foi a experiência mais terrível que teve até hoje. Ficou marcado pelo modo como viu as pessoas a saírem da paróquia a gritar e chorar. O barulho normal de 6000 deslocados tornou-se no silêncio do cemitério. Depois do incidente, ele passou a noite em claro e ainda é atormentado por pesadelos ocasionais.

 

Caminhando no terreiro no dia seguinte, foi terrível ver os lugares afectados pelos tiros e granadas. Quase todos os vitrais da igreja foram destruídos. Duas granadas foram atiradas contra a porta principal mas não a danificaram. Os atacantes pensaram que as pessoas se esconderam na igreja. Teria sido uma carnificina se tivéssemos deixado as pessoas esconderem-se na igreja. Outras destruições: motorizadas queimadas e paredes e tetos destruídos pelas balas.

 

A parte pior foi a destruição humana. As pessoas falam de mais de 50 feridos e 15 mortos, incluindo um ex-padre diocesano que estava de passagem. Testemunhas oculares disseram que os atacantes levaram alguns jovens em dois todo-o-terreno brancos. Até agora não se sabe nada sobre eles.

 

Apesar da gravidade do ataque, as pessoas estavam felizes por nos verem vivos.

 

Este incidente põe algumas questões sérias: como é possível que depois de seis meses da presença de MISCA (missão internacional) e Sangaris (missão francesa) em Bangui ainda haja tanta insegurança? Também é quase certo que os atacantes passaram pelo mercado principal chamado KM5 e o mercado não é longe da base das tropas internacionais. Como é possível que não os viram? A paróquia fica entre dois postos de controlo das tropas do Burundi e ambos estão a menos de um quilómetro da igreja. Porque não vieram em nossa defesa a tempo tendo em consideração que os atacantes permaneceram quase duas horas à volta da paróquia? Como é possível que Bangui continue tão inseguro depois de seis meses de presença de forças estrangeiras? Não sabemos para onde caminhamos. Estamos em crise a todos os níveis.

 

Continuamos a rezar por este país.

 

Padre Moses Otii, Missionário Comboniano ugandês

Fátima – Bangui, 31 de Maio de 2014



© copyright Missionários Combonianos - Revista Além-Mar | Todos os direitos reservados