Página Inicial







África: Casa da música
7 de Julho de 2016

Eles sabem que a música comanda a vida!

 

Quinze anos de África, na Etiópia e no Sudão do Sul, chegaram para entender que, no continente, a música, o ritmo e a dança comandam a vida do nascimento à morte.

 

A vivência de oito anos com duas etnias etíopes – Gujis e Guedeos – deu para descobrir as diferenças entre a música tradicional das comunidades de pastores e de agricultores. A primeira é física, repetitiva e monótona até à exaustão; canta sobretudo o gado e as suas bondades. A segunda é criativa, elaborada e variada nas melodias, ritmos e movimentos. Um ouvido atento descobria quem batucava nas noites de luar. Mas há um ponto comum: a música é o condimento essencial da vida, nas alegrias e nas tristezas.

 

Os sete anos de rádio no Sudão do Sul abriram-me ao espaço amplo da música africana: dos sons que se elevam da solidão dos desertos como lamentos às melodias românticas melosas da Etiópia e do Sudão, passando pela exuberância rítmica das guitarras eléctricas da República Democrática do Congo e da música comercial que se faz um pouco por toda a parte.

 

Encanta-me a música africana e trago mais de 30 álbuns no meu MP3: do Sudão à África do Sul, de Cabo Verde à Somália. Gosto dos ritmos, das combinações de instrumentos tradicionais com os electrónicos – como fazem os Azandes no Sudão do Sul, das vozes, dos instrumentos simples… São paisagens sonoras que descansam, revitalizam, refazem. A música tradicional tigrinha, da Eritreia e Norte da Etópia, usa o batimento do coração como cadência dos tambores de dança.

 

Tenho os meus preferidos: no topo estão a Cesária Évora e a música cabo-verdiana: as mornas e as coladeiras respiram vida, encanto, sentimento. Sodade não deixa de me emocionar. Recordo o arrepio que senti ao visitar uma galeria de arte em Halifax, no Canadá, com Cesária em fundo musical.

 

Mas há mais! Começo pela África do Sul: Lucky Dube, autor reggae do quotidiano assassinado aos 43 anos; Miriam Makeba, ou Mama Africa, que conjugou a música com a militância anti-apartheid; Ladysmith Black Mambazo, coro masculino caracterizado pelas vocalizações polifónicas muito trabalhadas; e Soweto String Quartet, num registo mais clássico, são os meus favoritos.

 

Também gosto da música que se faz na Etiópia, Eritreia e Sudão (étnica, jazz e comercial) e tenho uma predilecção especial pelos sons do Mali pelos efeitos acústicos dos instrumentos tradicionais. Ali Farka Touré e Oumou Sangaré são os meus preferidos. Também gingo com os ritmos exuberantes da bacia do Congo.

 

Depois há a música religiosa, uma indústria florescente e importante, por exemplo, na Etiópia, Quénia, Uganda e Tanzânia, que se impõe pela qualidade e que compete com a música comercial nos escaparates das lojas oficiais e nas bancas de CD copiados dos vendedores ambulantes. O Gospel Countdown, que passava a música religiosa mais pedida pelos ouvintes, era dos programas com mais audiência nos domingos da Rádio Bakhita, em Juba, no Sudão do Sul.

 

A música africana é uma proposta boa para degustar no tempo mais descansado das férias. Que tal uma imersão nessas sonoridades tão cheias de vida? Boas férias.

 

José Vieira (MCCJ) - Jirenna



© copyright Missionários Combonianos - Revista Além-Mar | Todos os direitos reservados