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África: Maldição branca
3 de Maio de 2016

O albinismo afecta e põe em risco a vida de milhares de pessoas.

 

O albinismo é uma doença rara hereditária caracterizada pela (quase) ausência de melanina, a proteína que gera os pigmentos que dão cor à pele, olhos e cabelo para proteger o organismo dos raios solares. As pessoas afectadas por essa patologia têm pele e cabelos muito claros.

 

O albinismo tem uma incidência maior na África Subsariana, embora esteja espalhado por todo o mundo e discrimine milhares de pessoas. Na Europa e na América, afecta uma em cada 17 a 20 mil pessoas, mas na África a sul do Sara a incidência é quatro vezes maior e na África Oriental 12 vezes.

 

Na África, as pessoas com albinismo são duplamente discriminadas. Por falta de protecção contra os raios ultravioletas, têm problemas de visão e sofrem graves queimaduras de pele. A maioria acaba por falecer de cancro entre os 30 e os 40 anos.

 

A superstição é outra ameaça: há famílias que matam os bebés com albinismo porque são considerados maldição; os feiticeiros, por seu turno, crêem que a pele branca tem poderes mágicos – e a das crianças ainda mais – e usam órgãos dessas pessoas para feitiços.

 

Ikponwosa Ero, perita independente da ONU para a defesa dos direitos humanos de pessoas com albinismo, publicou em Março um relatório em que denuncia o cabo das tormentas que essas pessoas têm de dobrar.

 

«Mitos perigosos alimentam estes ataques contra pessoas inocentes: muitos acreditam erradamente que pessoas com albinismo não são seres humanos, mas fantasmas ou sub-humanos que não podem morrer, mas só desaparecem», disse na apresentação do relatório.

 

O documento denuncia que pessoas com albinismo são vítimas de graves mutilações e morte a machete para recolha de partes do corpo, incluindo dedos, braços, pernas, genitais e ossos, usadas em rituais de feitiços, poções e amuletos. Um negócio macabro: uma perna pode valer 1780 euros e um cadáver inteiro 66 850.

 

A perita nigeriana, que também tem albinismo, disse que entre Agosto, quando assumiu o cargo, e Março foram registados 40 ataques em sete países africanos, na maioria contra crianças. A Tanzânia e o Quénia são os países mais violentos para quem sofre da falta de pigmentação. No Malauí, grupos criminosos autodenominados «caçadores de albinos» estão activos desde 2015 e desde Janeiro já atacaram 34 pessoas e mataram 11.

 

Em Tete, Moçambique, sete crianças com albinismo foram raptadas desde Dezembro. Lurdes Ferreira, porta-voz do comando distrital da polícia, disse que se trata de «um crime organizado transfronteiriço e por isso fomos incapazes de prender os raptores».

 

As campanhas eleitorais podem representar um perigo acrescido por haver registo de políticos que pedem a feiticeiros que os ajudem a ganhar e estes recorrerem a órgãos de pessoas que sofrem de albinismo para potenciar os feitiços como aconteceu no Gana, Senegal, Costa do Marfim e Quénia.

 

A senhora Ero propõe desenvolver e fortalecer medidas específicas para prevenir e pôr fim às agressões contra as pessoas com albinismo, incluindo campanhas de consciencialização e compreensão da sua condição e a definição de quadros jurídicos internacionais.

 

José Vieira (MCCJ) - Revista Além-Mar, Maio de 2016



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