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Brasil: «Jogue a favor da vida» nas Olimpíadas 2016
20 de Junho de 2016

Está a aproximar-se o dia de abertura das Olimpíadas 2016. Os jogos da XXXI Olimpíada realizar-se-ão de 5 a 21 de agosto de 2016, na cidade brasileira do Rio de Janeiro.

 

Com o aproximar-se do evento mundial, aumenta a preocupação das organizações que lutam contra a exploração sexual e o tráfico de pessoas, porque é nestas ocasiões particulares de grandes concentrações humanas que o fenómeno tende a agravar-se. Por esse motivo, a organização “Talitha Kum” (Levanta-te), Rede Internacional da Vida Consagrada contra o Tráfico de Seres Humanos, lançará a campanha internacional “Jogue a favor da vida”, no próximo dia 21 de junho, através da Rádio Vaticano, em Roma.

 

Na conferência de imprensa do dia 21, em Roma, participarão o Cardeal João Braz de Aviz, Prefeito da Congregação para a Vida Consagrada; a Sra. Eurides Alves de Oliveira, coordenadora da Rede “Um Grito pela Vida” (por meio de vídeo); a Alessandra Sensini, velejadora italiana e campeã de windsurf (medalha de ouro em Sidney 2000); e a Irmã comboniana Gabriella Bottani, coordenadora de Talitha Kum, em Itália.

 

Os megaeventos que serão sediados no Brasil trazem uma série de questionamentos e riscos que podem maximizar condições nas quais pessoas são iludidas com falsas promessas sobre trabalho e melhoria de vida.

 

Neste contexto, entende-se que os Jogos Olímpicos de 2016, embora tragam oportunidades de lazer, cultura e algumas possibilidades de trabalho, trarão também muitos riscos e probabilidades para o “turismo sexual” e a ação de quadrilhas que se organizam para aliciar, explorar e traficar pessoas.

 

Ganhe a medalha fazendo o bem: denuncie os casos suspeitos de tráfico e exploração!

 

A Rede Um Grito pela Vida tem o papel de sensibilizar e socializar informações sobre o Tráfico de Pessoas e exploração sexual, a fim de intensificar a luta por políticas públicas de enfrentamento desta realidade. Capacita multiplicadores e multiplicadoras para ações educativas de prevenção e utiliza a comunicação como recurso para informar e engajar a sociedade nesta luta. Em 2016, dará continuidade à campanha Jogue a Favor da Vida.

 

Objetivos da campanha: Prevenir, alertar e enfrentar

Sensibilizar a sociedade e o poder público para a realidade do tráfico de pessoas e exploração sexual, incentivando o fortalecimento e criação de medidas de prevenção e enfrentamento.

 

Intensificar o alerta para pessoas em situações de vulnerabilidade social, passíveis de serem aliciadas.

 

Durante o período dos jogos olímpicos no Brasil, sensibilizar turistas e autoridades sobre o impacto da exploração sexual e o tráfico de seres humamos na vida das pessoas e famílias afetadas, incentivando a sociedade para ações de prevenção, solidariedade e monitoramento.

 

Engajar entidades e multiplicadores na realização da Campanha Jogue a favor da Vida.

 

Entrevista: Contra o tráfico humano

A irmã Gabriella Bottani, missionária comboniana, é a responsável por Talitha Kum, a Rede Internacional da Vida Consagrada contra o tráfico humano, fundada em 2009. Em conversa com a revista comboniana portuguesa, Além-Mar, fala sobre o trabalho que fazem os consagrados em favor destes irmãos que vivem em situações semelhantes à escravatura.

 

Como é que qualificas o estado do tráfico de pessoas hoje?

O tráfico de pessoas é hoje um fenómeno que tem vindo a aumentar em todas as suas modalidades, seja na exploração sexual, como nos fenómenos da exploração laboral, trabalho forçado, casamento forçado, mendicância, tráfico para extracção de órgãos, tráfico para o envolvimento em actividades criminosas como meninos-soldados e também o tráfico de droga. Essas realidades criminosas vêm-se entrelaçando entre elas. É um fenómeno que tem vindo a crescer e também é cada vez mais difícil definir com clareza os lugares de origem e de destino ou de trânsito. O tráfico está a acontecer em todos os lugares, tráfico interno, tráfico transnacional. Há cada vez mais pessoas envolvidas. Homens, crianças, mulheres são utilizados para fins lucrativos. O tráfico, sobretudo de seres humanos, mas também o tráfico de armas e drogas, são das actividades ilícitas mais lucrativas que existem.

 

O tráfico de drogas, seres humanos e armas não são os pilares da economia subterrânea, mas da economia real do mundo de hoje. Como é que se pode contrastar esta realidade? Há alguma maneira de nos relacionarmos com os traficantes para tentar controlar este fenómeno de exploração?

Na minha experiência, o trabalho directo com os traficantes é muito difícil porque são actividades criminosas e também acaba por ser muito complexo e muito perigoso. O impacto também vai ser muito difícil para uma efectiva mudança. Mas essas actividades criminosas existem e subsistem porque são sustentadas por uma mentalidade e uma realidade que permitem a essas associações criminosas actuarem. Sustentam-se na corrupção, na indiferença, na ganância, no desejo de fazer dinheiro. Acho que temos de trabalhar mais as causas para as reduzir e todas aquelas áreas de vulnerabilidade; também aqueles elementos culturais da nossa época fazem com que essas organizações criminosas continuem a actuar. Penso sobretudo no exemplo mais simples, na questão da tentativa de reduzir a procura, que é uma das actividades que nós, como rede Talitha Kum, estamos a apoiar, reduzir a procura de sexo a troco de dinheiro. Porque, efectivamente, se as pessoas são traficadas e têm nesse sentido uma oferta é porque há procura, e reduzindo a procura nós esperamos também reduzir o impacto da consequência do tráfico. É por isso que projectos educativos, programas educativos e mudança de mentalidade são fundamentais.

 

Uma das características do tráfico de pessoas, armas e drogas é a organização extrema e minuciosa que faz com que consigam redes de infiltração, de angariação, de transporte. A esta organização extrema qual é o tipo de resposta que dá a Talitha Kum?

A primeira resposta é não ficarmos isolados, é ficarmos juntos, juntar as forças e acreditar, ter fé e esperança que podemos fazer algo. Não ficar passivos nem indiferentes diante dessas coisas. Por vezes o medo paralisa-nos, bloqueia-nos. Acredito que a primeira mensagem, a primeira força de uma rede é perceber que juntos podemos fazer algo, podemos mudar as coisas, não deixar um espaço tão grande para essas organizações criminosas e do mal. A outra mensagem é o próprio nome Talitha Kum, que significa “levanta-te”. Esse levantar-se tem a força da Palavra de Deus, mas também tem a força de todos nós que quando nos relacionamos como verdadeiros irmãos e irmãs, quando conseguimos resgatar a nossa dignidade e sabemos que a dignidade do nosso irmão ou irmã é também a nossa dignidade. É um levantar-se diante dessas situações, mas também um levantar-se para contrastar com todas aquelas situações que estão efectivamente, como dizia antes, a favorecer o tráfico de pessoas.

 

Isso quer dizer que esta palavra que Jesus pronunciou há 2000 anos e que é tradição cristã conservou na língua original, o aramaico, talitha kum, levanta-te, continua a ser uma ordem dada hoje a quem?

A todos nós, acredito. Por vezes, tenho a impressão que somos muito negativos, já não acreditamos que é possível algo de diferente. Temos um olhar muito fechado e muito pessimista das realidades. O nosso tempo é um tempo complexo, de grandes mudanças epocais, mas isso não pode matar a esperança cristã. Esse «levanta-te» é dito para todos nós, temos de arriscar verdadeiramente, levantar a cabeça.

 

Por: P. José Vieira



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